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A obviedade do amor.

De Bianca Rosolem.

Eu pintava as unhas dos pés de cor-de-rosa velho enquanto você colocava as calças. E fiquei olhando você as vestindo, sempre tão do mesmo jeito, que acabei por borrar a unha do dedinho que é pequena e difícil. Porra! Você sempre com tanta pressa e eu ainda com a toalha enrolada no cabelo.
Aí você senta com aquela cara de “vai demorar a vida toda, né” e fica olhando para a T.V. Eu passo peladinha na sua frente, andando com os dedinhos do pé para cima para que não borrem, e você apenas move a cabeça para ver alguma gostosa do programa de domingo rebolar. Eu não sei muito bem o desenrolar da história, digo, como todo esse poder do corpo feminino siliconado-rebolativo aniquilou a sensualidade da mulher que anda nua com as unhas dos pés cor-de-rosa. Tirei a toalha da cabeça, ainda intrigada, e comecei a secar o cabelo. Você aumentou a T.V. Realmente o senhor-engraçadinho e apresentador-cafetão daquele programinha decadente deveria ter algo muito importante para dizer e acrescentar ao seu alto nível cultural, “né, queridinho?”. Bom, eu só pensei e ri sozinha no banheiro.
Mas aí, então, eu tive uma idéia, que nem era bem uma idéia. Era alguma coisa estúpida, mas em certos momentos é necessária sua utilização.
Eu abri a veneziana puxando a correia com a bundinha bem pra cima. E fiquei ali passando creme, devagar. Pronto, consegui seu olhar fulminante que se direcionou para as janelas do prédio da frente. Tão previsível. Você fez o sermão de que eu sempre fazia isso e desdenhei com os ombros, continuei. Eu dividi sua emoção entre a bunda da TV e a minha exposta na janela para todos os vizinhos do residencial da frente. Eu contemplei a sua cara angustiada de “o que eu faço agora?”.
Mas, eu não esperava por aquilo. Não mesmo. Você achou um programa com os maiores gols da história da humanidade sonorizados com uma música emotiva. Vislumbrei seus olhos marejarem com o “trocentos” milhões de gols de uns caras, dos quais eu só sabia do Pelé. Mas nem se eu dançasse “mambo versão remix boate gay” você olharia.
Olhei no espelho, as unhas bonitinhas, secas, o cabelo lindo e cheiroso, o corpo perfumado e sedoso e pensei: Será que precisarei marcar um gol do meio de campo?
Não! Dirigi-me ao banheiro e peguei a lâmina de barbear. Foi até rápido.
Peguei o vestido no armário discretamente. Passei aquele perfume que você adora, mas só quando pouco eu uso.
Parei na sua frente e levantei o vestido. Tchum! Sem calcinha. Tchum! Sem...! Ai meu Deus! Toda nua, peladinha e depiladinha. Como as de filme pornô que você assiste escondido.
Segurei a barra na altura dos olhos, até você deixar a surpresa desmobilizar seus braços para pular sobre ela.
Previsível.
Não saímos mais da kitinete aquele dia.
O amor é muito, mas muito, mais embaixo.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h49
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Silicone-cabeça.

De Giovana Madalosso.

No mundo, existem seios e seios. Assim como existem homens e homens. Há algum tempo atrás, coloquei uma prótese de silicone, certa de que estava fazendo um avanço estético. Qual não foi minha surpresa ao constatar que certos homens, aqueles que assistem a filmes iranianos e participam de saraus literários, tem verdadeira rejeição ao silicone.

Ao me verem com o novo par de seios, os homens-cabeça franziram a sobrancelha, decepcionados. Segundo eles, eu estava me rendendo a uma ditadura estética, mutilando meu corpo para atingir um padrão estabelecido pela mídia, resolvendo um problema de insegurança que deveria ser resolvido no divã e não numa mesa de cirurgia. Uma coisa que eles esperavam da Danielle Winnits, mas não de uma mulher esclarecida como eu. Além disso, viam nos seios naturais, ainda que flácidos, uma beleza verdadeira, antropológica, Glauberiana.

Parei para pensar. Eles tinham uma certa razão, mas minha blusa de alcinha insistia em dizer o contrário. E de qualquer maneira, era tarde demais. Empinei meus seios em outra direção e fui embora, pensando que a partir daquele dia estava fadada a me relacionar com instrutores de aeróbica, operários civis e outros apreciadores da estética de massa.

Não foi o que aconteceu. Um tempo depois, comecei a sair com um homem-cabeça, um daqueles que havia me criticado. Um belo dia, despi-me na frente dele. Ao ver os meus seios, ele não franziu a sobrancelha, mas arregalou os olhos por trás dos óculos de aro grosso. Depois jogou o livro de filosofia que tinha nas mãos para longe e, com a expressão de um rapaz de quinze anos, veio maravilhado ao encontro das minhas próteses. Pensando bem, no mundo existem vários tipos de seios. Com relação aos homens, tenho minhas dúvidas.

Giovana Madalosso é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 19h51
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A fila anda é o caramba.

De Cristiana Soares.

Apresentei um ao outro. A intenção era removê-los do celibato. Na primeira noite, reconheceram-se na possibilidade. Numa segunda, partiram para a concretude. Numa terceira, não sabiam o que fazer um com o outro. A partir daí, desempenharam um patético movimento de ir-não-indo-talvez-fondo.

Sugeri a ela que se mostrasse mais acessível, já que ele até ensaiou um convite para o depois. Ela cedeu uns graus e fez-se mais responsiva. Mas para ele pareceu ser tarde demais. Nesse meio tempo já havia voltado à toca. Os dois hoje mal se falam, protegidos pelo constrangimento. E rodaram a catraca.

A escritora de livros para adolescentes, em uma sessão de aconselhamentos sentimentais no Youtube, diz para seu público:

- “Não” não dói. No dia seguinte sai no xixi. Você nem vai lembrar mais!

Opa. “Não” dói sim. Tudo bem que não devemos deixar que ele nos imobilize. Mas dói. Ainda mais se é o primeiro de nossa vida. E como assim “eu nem vou lembrar mais”?

Lavou tá novo. Essa é a premissa das relações pós-modernas. Luto pela perda pra quê? Afeto? O que é isso? Ah, você quis dizer sexo. Selvagem. Com múltiplos orgasmos e performances pirotécnicas. Intimidade pra quê? Somos desinibidos e bem resolvidos. É tirar a roupa e créu. E se não houver amanhã tanto melhor. Amanhã pra quê?

A fila anda. É a deixa do seu melhor amigo depois daquele pé que você ganhou. E, assim, de cinismo em cinismo vamos nos esbarrando. Sem apego, sem vínculo, sem reconhecimento do outro. Sem nenhuma humanidade para atrapalhar.

Tsc, tsc, tsc. Milhares de almas solitárias nessa imensa malha contemporânea.

Porque é tudo fake. Porque não existe relacionamento, por mais físico e curto que seja, sem entrega mínima. Porque para se entregar é preciso intimidade. E para isso é preciso criar vínculo. Desculpa, mas o ser humano é assim. Incluindo os homens. O resto é história para impressionar os amigos na mesa de bar.

Mesmo quando o objetivo é o desdobramento de uma balada, um orgasmo solto no ar ou algo para entreter os sentidos enquanto o efeito do álcool é soberano... supondo que seja isso o que se queira de fato... mesmo assim os corpos envolvidos estão registrando sensações de contato. Eles querem pertencimento, troca, acolhimento, fusão. Essas coisinhas. E as almas os acompanham com prazer.

Sobra você. Bobão. Achando que está no controle da situação.

A globalização ricocheteia como um bumerangue, a comunicação se horizontaliza via internet, as células-tronco se multiplicam, mas cá estamos, intimamente, querendo uma criatura com quem possamos trocar palavras e experiências, em quem possamos confiar por mais que alguns dias ou meses.

Porém o que há disponível hoje é o amor fluído, oportuno e utilitarista.

Para que amar se podemos banalizar? Trocamos a entrega pela defensiva. A dedicação pela autonomia. Somos fodões. Livres, lindos e poderosos. É só conferir nos perfis das redes sociais.

E estamos evoluindo. Saímos da era do “ficar” para a era do “pegar”.

Cristiana Soares é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h03
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Deus tem tarja vermelha?

De Gisela Rao.

Na lenda do Patinho Feio, o bicho não sofre por ser feio, mas por ser diferente dos outros. Ele tenta, sem muito êxito, encontrar a sua turma várias vezes e só toma na cabeça. Por fim, ele acaba descobrindo que não era um pato – e sim um cisne – e dá de cara com a felicidade ao lado das aves iguais a ele. Se deu bem o empenado. Assim como o pato-cisne, minha história também não chegou a ser das melhores.

Sempre fui diferente das outras crianças. Minha mente era mais rápida, portanto sempre estudei um ano adiantada na escola, mas também era bem confusa e um pouco sem noção. Eu era espontânea demais, transparente demais, desconcentrada demais, inadequada demais, imatura demais. Bom, pra não dizer que eu era o próprio Elo Perdido, também era criativa e esperta demais. Foi na minha pré-adolescência que conheci pela primeira vez a palavra - excêntrica - que minha mãe usava no lugar de – doida - para explicar às pessoas “normais” o meu comportamento diferente dos outros. Sofri um bocado por ser assim, principalmente nos relacionamentos. Ou eu era ansiosa demais, ou dramática demais ou agressiva demais ou impulsiva demais. Eu era a maluquinha da família, que tinha puxado à também excêntrica bisavó Valentina.

O tempo passou e eu sobrevivi, sempre com baixa auto-estima por ser de outro planeta. Um dia me deram de presente um livro chamado “Mentes Inquietas”, da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa. Lá, ela falava sobre pessoas com um jeito de viver e pensar muito parecido com o meu e dava a essas pessoas o nome de Hiperativas, gente com DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção). Comecei a compreender melhor as minhas atitudes e achei legal saber que tinha mais gente no mundo que me entenderia.

Depois de ler metade do livro – porque um hiperativo raramente consegue ler um livro até o fim – fiz bastante terapia para ver se a coisa melhorava. A coisa não melhorou, mas aumentou bastante o meu autoconhecimento. Nos últimos anos, comecei a sentir uma certa inveja das pessoas “normais” por elas conseguirem ter mais prazer que eu. Digo isso porque, para mim, sempre foi muito difícil ficar horas num lugar só, ou tomando um cafezinho calmamente vendo as pessoas passarem, ou até mesmo curtir o sexo em cada um dos seus demorados detalhes.

Simplesmente não conseguia, porque a cabeça - rápida demais – deixava o corpo inquieto e desassossegado e a alma mais ainda. Os raros momentos de atenção-no-presente que eu tinha eram tão valiosos e prazerosos, que eu sentia uma felicidade absoluta, uma plenitude boa demais. Na minha cabeça, isso era Deus. Era quando eu, por alguns momentos preciosos, podia tocar os dedos do Misterioso. Uma espécie de Feitiço de Áquila Celestial (aquele filme com Michelle Pfeiffer e Rutger Hauer), onde um eclipse fazia sol e lua, águia e lobo se encontrarem por um tempo curtinho, até tudo voltar a ser como antes. Acreditava mesmo de verdade que era iluminação.

Até que há um mês um médico amigo me receitou um remédio desses tarja vermelha. É um remédio que eleva a serotonina (um neurotransmissor que ajuda a aumentar a sensação de prazer no cérebro), mas ele estava indicando para diminuir minha hiperatividade, para que eu pudesse me concentrar mais no trabalho, curtir mais a vida e enlouquecer menos o meu namorado. No começo, o treco me deu um pouco de dor de cabeça e quase larguei, mas ao longo dos dias voltei a sentir aquela calma, aquela sensação de paz e felicidade divina que descrevi agora há pouco. Minha ansiedade e agressividade abaixaram e, finalmente, comecei a perceber o que era curtir mais a vida, o momento presente. Mas veja bem: não estou falando para ninguém tomar antidepressivos. No meu caso a coisa era complicada mesmo. Existem muitas formas de uma pessoa “normal” dar uma acalmada.

Esse novo sentimento me fez refletir se a sensação de tocar os dedos de Deus, pelo menos para uma hiperativa como eu, estaria disponível na farmácia da esquina por alguns reais. Teria Deus tarja vermelha? Seria Deus serotonina ou seria serotonina Deus? Cheguei à conclusão de que, a resposta para essas perguntas, é muito parecida com a que o investigador chinês fala para o Harrison Ford, no fim do filme Blade Runner: “Who knows...”.

Gisela Rao é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 20h21
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Humaitá!

De Lusa Silvestre.

Por que eu, um homem assim chique, talentoso, prendado, conhecedor de moda (sei se é plush ou veludo de longe), por que eu ia querer entrar no Batalhão de Choque ? Tipo, por que eu ia querer me meter naquela vida de quartel sofriiiida, por que eu ia querer entrar nessa ? Não era pela roupa, né, gente: olha essa calça de PM. Sério, gente: olha essa calça de brim sujo. E azul, ainda. Não é um ó ? Brim azul. Só fica bonito se for Diesel. Então. Quando eu contei pra minha mãe, ela arranhou o rosto, descabelou, pegou no Santo Expedido  e ligou pra Tia Mariquita perguntando a mesma coisa: por que ?! Por que um menino tão lindo, estudado, perfumado, tão carinhoso com a mãe, por que ia querer virar PM do Choque ? Meu pai, não: ficou orgulhoso. Deu um soco no meu peito e disse “isso mesmo, mostra pra esse povo que você não é isso que dizem na padaria.” Gente, o motivo é simples: desde criança, no internato, eu me sinto bem nesse ambiente. Entre os machos. A escolha foi natural. E foi uma decisão amadurecida, tá ? Pensei anos nisso. E quando fui fazer o teste de aptidão não sabia se dava pra coisa. Mas rolou. Muito por causa do meu corpo, sabe ? Fala sééério, olha esse meu muque. Pode apertar. Viu ? Dá pra tatuar o Corcovado aqui, em tamanho natural. E ainda sobra espaço pro Elevador Lacerda. Preparo físico. Pra ser do Choque tem que ter preparo físico. Até pra aguentar o treinamento.

São meses dentro do quartel, sem sair pra balada, sem ir em Rave, nada. Só subindo e descendo em rampa de madeira, dando tiro, gritando e falando palavrão alto – acho meio brega, mas grito também. Gritar é meio coisa de pobre, não acha ? E também tinha que fazer exercício de ordem unida. Pra aprender a marchar. Ah, como seu eu precisasse. Instantinho, deixa eu marchar pra você ver. Tem que bater o pé assim, firme, tipo “estou dando faniquito”. Batendo o pé mesmo. Olha esse marchar. A bunda empina sem querer, não consigo evitar. Mas fica bonito, né ? Gisele Bundchen perde pra mim. Fala sééério, eu de coturno preto e empinando a bunda, segurando essa metranca, não, gente: é de parar o trânsito. Tinha também que estudar umas coisas, ler livro cheio de leis, o que era mais difícil pra mim, porque eu gosto de ler Cecília Meirelles - e não o Código Civil. Tinha que dormir no quartel também, ah, isso eu não curtia, não. Dava uma saudade da minha mãe que não sei como eu aguentava. Na hora de deitar, bem quando ela me trazia leite com canela em casa, ah, gente, que saudades. A coisa boa é que o pijama de dormir era aquele charmoso no úrtimo, sabe aquele da camiseta branca com número escrito no peito ? Nossa, me sentia o Tom Cruise no “Ases Indomáveis”. Na hora de deitar, ficava até assobiando o a musiquinha do filme na cama, mais pra brincar mesmo, e de vez em quando vinha um “pára de assobiar essa merda, porra !” que assustava. Tem uns caras meio grossos aqui no Choque. Acho gente grossa muito cafona.

Acabou o treinamento, me formei. Teve ordem unida, marcha, aquilo tudo que a gente treinou. A gente pôs a roupa de gala, que aperta aqui na virilha, meio desconfortável, sabe ? Se fosse eu, faria de outro jeito. Deixava aqui mais folgadinho, sabe ? Que nem as calças que o Oskar desenhou, sabe aquelas que parece que o modelo está de fralda ? Acho o má-xi-mo. Mas, pra formatura, a gente pôs mesmo essa roupa de escolta de casamento de major, que é meio anos sessenta. E tem esse quepe, aqui. É, eu sei. Feio, né ? Ainda se fosse a boininha, tipo Toulouse Lautrec, até ficava melhor. Mais transgressor. Moda é comportamento, gente. É jeito de ser. É emoção. E o que minha mãe chorou na formatura ? Eu não: me segurei. Só chorei quando cheguei em casa. Pus o “Pontes de Madison” no DVD, pra fazer um clima, e me debulhei.  Sabe quando a gente sabe que precisa chorar, pôr pra fora, purificar o subaé ? Ah, como faz bem. Eu merecia chorar. Tipo, sonho realizado, sabe ? No dia seguinte eu acordei outro, pronto pra descer o porrete em torcida organizada. Olha meu porrete. Fala sééério.

Bom, daí começou a rotina. Escolta de político aqui, jogo de futebol ali, nada demais. Um dia, eu estava lustrando o coturno tranquilo no quartel, esperando dar seis horas pra ir pra casa (eu tinha ingresso pro show da Marisa Monte) e de repente, uóóóó, a sirene do quartel fez escândalo. Detesto escândalo, coisa mais mixa. A gente se vestiu voando, nem deu tempo de ver se estava tudo em ordem no espelho, e pronto, subimos no caminhão. Tinha estourado rebelião ali na Penitenciária do Estado. Agarrei na minha imagem de Iemanjá que eu trago aqui no pescoço – olha que coisa mais linda, trabalhadinha. Comprei em Paraty – e pedi proteção. Gente, que nervoso. A gente desceu do caminhão, e já foi pegando o escudão. Pesa cem quilos, aquele escudo. E deixa a mão tudo em carne viva. Escudão numa mão, cassetete na outra, a gente entrou na cadeia. E a gente ainda batia com o cassetete no escudo, e a cada batida gritava “Humaitá !”, que é o nome do batalhão. Imagina só: você está preso, fazendo rebelião, dormindo naquele nojo que é a cadeia, cheio de pulga, e daí vem trezentos polícia com escudão e cassetete gritando “Humaitá !” Gente, se fosse eu, largava tudo e saía gritando “Clemência” pro primeiro escoteiro que aparecesse. Fala sééério. Já viu quando a gente grita “Humaitá”? Até o Steven Seagal treme o beicinho.  Mas essa rebelião foi tranquila: estava cheio de padre distribuindo marmita pros presos amotinados, então era só mais a presença mesmo. Mas aprendi: hoje quando estou histérico  com alguma coisa, pode ser o trânsito, pode ser uma limpada na alma, grito bem alto “Humaitá !” pra pôr os bofes pra fora mesmo, sabe ?, soltar o que a gente tem por dentro. Resolve. Dia desses eu estava na rua, andando à paisana  e vi o Gianechini. Não resisto a uma celebridade. Gritei “Humaitá !” pra ele. Ele riu.

Além de rebelião, tem também muito jogo de futebol pra fazer. É ruim porque cai no domingo, normalmente. Eu prefiro almoçar na minha mãe, mas fazer o quê. E tem que acordar cedo. O bom é que junto com a gente, de caminhão, vai o pessoal da cavalaria da Polícia, que, nossa, tou pra ver coisa mais linda que aqueles cavalões enormes, peito mais lindo, músculo até na gengiva. Viril, sabe ? E, juro, acho sela de cavalo uma coisa muito sexy. Fiz até uma coleção em cima das selas de cavalo, quer ver ? Olha só. Desenhei com Crayon. Pra pôr no pescoço. Meio jogado, assim, como se fosse uma echarpe. Tipo, você é o cavalo, e o seu pescoço está selado pra o que der e vier. Tipo, cavalinho de criança. Exuberante. Gosto de trabalhar com essa coisa muito louca do cavalo e do cavalinho. Mas me perdi: jogo de futebol. É no jogo de futebol que o PM do Choque fica mais assim assanhado. Entrar em cadeia é fácil, tem os padres, o Humaitá, nunca precisa fazer muito mais que bater no escudo e dar uns gritos. Mas jogo de futebol é coisa pra macho. Quando tem briga na torcida, vixe, tem que abrir espaço dando porrada mesmo. Não gosto de dar porrada. Prefiro a conversa. Porrada é muito ignorante. E eu sou culto, gosto de poesia, teatro, tudo. E dar porrada machuca a pessoa. Fica tudo roxo. Carma negativo, isso de dar porrada. Outro motivo de eu não gostar de ficar na torcida é a catinga que fica ali no meio. Fala sééério. É xixi misturado com cecê, e bafo de acetona. O povo bebe umas pingas – mixo, né ? – depois fica pulando e suando, e daí querem que a gente fique separando briga com a mão. O quê ? Eu, pondo a mão nessa nojeira? Eu, hein. Uso o cassetete mesmo. E ainda penso “Sai pra lá, fedô” a cada pancada que dou.

Mas tem também a moleza. Que é quando o sargento e o capitão vão com a sua cara e te escalam pra ficar dentro do campo. Aí, é tudo de bom. Primeiro, que não fica no meu dessa gente fedida e cheirando mijo. Coisa de pobre. Pobre é que mija. Rico urina. Ficar no campo é fácil: a gente fica sentadinho, só às vezes que tem que correr pra proteger o juiz de uma peitada. Acontece muito quando tem jogo com Argentino. Argentino qualquer coisa quer sair no pau, ô gente. Custa conversar ? Isso que dá comer tanta carne. Outra coisa que eu gosto é ficar com o Pastor Alemão perto da bandeira de escanteio. Bem fácil também; basta ficar com cara feia e de vez em quando fazer um cafuné no cão. Adoro cachorro. Eu mesmo tenho um poodle, o “Maybe”.  E outra: pra quem gosta de celebridade, é o má-xi-mo. O must.  De vez em vez vem um Edmundo,  um Vampeta  em pessoa bater escanteio. Gente, o Edmundo ali, em carne e côxa, na minha frente, batendo escanteio ? Nossa, parece comercial de cueca Calvin Klein. Tem que ser um PM muito centrado pra não pedir um autógrafo. Humaitá !!

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h41
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A criatividade da vizinha é sempre melhor que a minha

De Henrique Szklo

A coisa mais comum que existe no mundo corporativo é uma empresa solicitar – e às vezes exigir – de seus funcionários, colaboradores e fornecedores, idéias criativas e inovadoras. Mas na hora em que estas lhe são apresentadas, um nariz torcido, uma boca arqueada para baixo e um senho repleto de sulcos invariavelmente são vislumbrados em rostos pasmos e incrédulos. Geralmente acompanhada de um “você está louco?”, a reação é sempre considerar como piada, uma brincadeira de mal gosto ou simplesmente um devaneio insano do propositor.

A pergunta que me faço quando presencio uma dessas cenas é “Será que eles sabem o que é criatividade? E na eventualidade de eles saberem, será que eles têm peito para levar uma idéia verdadeiramente criativa adiante?”. Em geral não. A maioria das pessoas só se sente confiante e confortável com uma idéia quando seu banco de dados mental encontra alguma referência positiva, ou seja, a idéia precisa estar “cadastrada” em sua cabeça para ser reconhecida como “boa”. Mas como uma idéia nova estará cadastrada na cabeça de alguém? Se é nova mesmo, não estará. O que significa que exigirá um novo imput mental. E para a maioria dos mortais este é um sacrifício duro demais para enfrentar. A dor da dúvida, da incerteza, da próxima curva é insuportável.

Mas por que então as pessoas insistem em perseguir a criatividade se elas não são capazes de suportá-la? Porque na maioria das vezes elas sequer sabem que isso acontece. Para elas, estão apenas fazendo um juizo de valor e não incorrendo em um preconceito. Elas acreditam de fato que aquilo não é uma boa idéia. Aí você pergunta para ela o que é uma boa idéia e ela lhe apontará uma imensa lista de idéias conhecidas, consagradas e, principalmente, testadas. E por acaso estas pessoas sabem o que os autores destas idéias vitoriosas tiveram de passar para levá-las adiante? Sabem o sacrifício emocional que tiveram de enfrentar? Sabem o medo que passaram por causa da incerteza e da dúvida inerentes às novidades? Sabem quantas vezes elas erraram até acertarem? Com certeza não. Por isso as empresas continuam obsecadas por criatividade sem sequer saber o que diabos isso significa. Criatividade por definição significa dúvida, significa risco, significa surpresa. Significa que às vezes dá errado mesmo. Mas nem todo mundo tem estômago para enfrentar riscos. Nem todo mundo é Stephen Jobs. Mas não se desesperem. Copiar bem copiado também não deixa de ser um grande talento.

Henrique escreve no Blônicas e dá palestras de criatividade.
Visite seu
site, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 20h30
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Ligação.

De Carlos Castelo.


- Fabiana, por favor?

- Como?

- Fa-bi-ana.

- Não tem Fabiana aqui não, meu queridinho.

- Não?

- Não, meu amor.

- E você, quem é?

- Sou a Clara.

- Bonito seu nome.

- É? Obrigada, meu amor. E você, como é o seu, hein?

- Gotardo.

- Oi Go-tar-do.

- Oi Cla-ra.

- Hahahahaha!

- Rerererere!

- ...

- ...

- Gotardôôô?

- Oiêê, Clarááá?

- Tem MSN?


Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h57
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Te amo, asfalto.

De Tati Bernardi.

Uma vez inventaram que para relaxar eu tinha que passar quinze dias numa
pousadinha rústica numa tal de Serrinha, ao sul do estado do Rio de Janeiro,
nas imediações de Itatiaia e Visconde de Mauá.
Você é taurina, Tati, precisa de terra. Precisa pisar descalça na terra. Fora que
duas semanas tomando banho de cachoeiras e ficando amiga dos amigos
pássaros e das amigas borboletas, você estará nova. Foi o que me falaram.
Lá fui eu. Totalmente desavisada e com amigos super bem intencionados,
para um dos lugares mais tranqüilos e verdes da minha vida. Totalmente fora
do trânsito, das buzinas, dos humanos de camisa social, do cheiro dos
escapamentos. Parecia perfeito.
O que ninguém me contou é que eu, um dos seres mais urbanos que esse
mundo já pariu, teria que fazer trilha para absolutamente tudo. Até para
tomar café da manhã tinha uma caminhadinha safada. Cachoeira bonita
então, era no mínimo três horas pra ir e mais umas três pra voltar. Picos com
vistas incríveis só saindo bem cedinho pra dar tempo de chegar “antes de
escurecer”. E todo lugar que levava a outro lugar tinha um raio de um
corregozinho no meio para molhar o tênis. Isso quando o lugar que levava a
outro lugar não tinha o raio do corregozinho passando a trinta metros abaixo
do seu ser que não vê mais muita graça em pular desde que o pogobol saiu
de moda. No segundo dia, tudo o que eu mais queria era um bistrô com
serviço de valet.
Insetos de todos os tipos se apaixonaram por mim. E eu me ocupava tanto
em odiá-los que esqueci de amar os amigos pássaros e as amigas
borboletas. Xixi de madrugada só se eu quisesse encontrar alguma amiga
aranha ou perereca. Quantos amigos! Eu que precisava “desestressar” passava
o dia em estado de alerta: que bicho será que vai pular em mim agora louco
pra fazer amizade?
Sinalização da diversão (cachoeiras, vistas, picos, rios...casinha das trutas,
chalezinho das bromeliáceas...) não existe simplesmente porque esse povo
do “contra asfalto” acha que a diversão está justamente em se perder mata
adentro. Tudo o que eu queria era uma plaquinha indicando a pavimentação
mais próxima. “Bem vindo a civilização!”
Como assim vocês acham que a tal da montanha que o sol passa no meio fica
pra lá? Depois de caminhar em uma manhã o equivalente a tudo o que eu já
caminhei desde a primeira comunhão, como que alguém vira pra mim e acha,
veja bem “acha”, que a tal da montanha com uma droga de um buraco no
meio fica pra lá? E que graça tem uma droga de uma montanha com uma
droga de um buraco dentro? Como tenho memória seletiva, não lembro
exatamente de nada que aconteceu depois que eu sentei no lodo e comecei a
chorar e a pedir “me deixem aqui, tudo bem se ninguém me encontrar, a
culpa é minha de ter topado”. Se eu não me engano alguém me levou de
volta pro chalé desmaiada pós uma crise de ansiedade por não agüentar mais
tanta calma, mas não tenho certeza.
Eu nunca quis tanto, tanto, tanto, sentir um asfaltinho cinza em baixo dos
meus pés. Engatar uma quinta num carro possante. Pegar uma estrada dessas
com pedágio bem caro. Sentir que estou em lugares patrocinados por bancos
e universidades trilhardários e não “cuidados pelo comércio local” ou ainda
“guardados pela guarda local”.
Dizem que só tem uma coisa melhor do que viajar: voltar pra casa . Eu acho
que só tem uma coisa melhor do que ser “off road” e curtir a natureza: voltar
pro asfalto lisinho, bem sinalizado, e pensar “to viva!”.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h47
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A que ponto chega a imbecilidade humana.

A ironia é que o 11 de setembro todo mundo lembra, mas 6 de agosto passa batido, apesar de cerca de 80 mil pessoas terem morrido instantaneamente e milhares de sobreviventes terem sua saúde gravemente afetada.

Escrito por Blônicas às 14h40
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Saber, eu sei...

De Cléo Araújo.

Eu tenho certeza de que o Bono Vox é pintudo.
Não sei por que, mas estou segura disso.
É minha sensibilidade aflorada que me permite afirmar.
Ele tem cara de pintudo. Deve ser pintudo.
Outra, quer ver?
Eu tenho certeza de que o paulistano é dotado de genética única. Em seu DNA deve haver um cromossomo que o habilitou, depois de décadas de evolução e muito dióxido de carbono, a agüentar horas no trânsito sem achar aquilo pior do que qualquer outra coisa que poderia lhe acontecer na vida. O paulistano médio, com raras exceções - que de tão preciosas poderiam ser classificadas como anomalias genéticas - não acha tão extraordinariamente insuportável ficar parado no trânsito feito um idiota encarcerado. Ao contrário do que pensa a maioria, um ser zen, esse tal de paulistano. Um cara que trabalha no Campo Belo e mora no Tucuruvi só pode ter genética evoluída. Certeza.
Eu também tenho certeza absoluta de que mulher nenhuma vai achar muito legal ser convidada no primeiro encontro para ir a um rodízio de pizza. Nem que o cara seja hippie, napolitano ou filho do dono da Camelo. Um rodízio de pizza não combina com um primeiro encontro. O restaurante do rodízio de pizza é o mesmo onde ela almoça com seus colegas de trabalho de segunda a sexta, onde ela usa seu Smart VR, onde ela come ovinhos de codorna, palmito e berinjela a parmegiana e de onde ela sai com cheiro de gordura no cabelo. Ele não tem nada de romântico, capisce? Bom, eu tenho certeza, amigo. Pode anotar aí.
Eu sei que o filme favorito da maioria da população mundial é “Uma Linda Mulher”. Mesmo que essa mesma maioria insista em dizer que foi “O Jarro”.
Eu sei que você fez de conta que já sabia quem era Thelonious Monk quando aquele mocinho descolado que você andava paquerando não entrou no seu papo sobre o Big Brother. Não precisa ficar com vergonha, não, amiga. A gente é humana, viu?
Eu sei, por A + B, que toda mulher dá a vida por um belo sutiã de bojo.
E que homem, por alguma razão misteriosa, não curte quando as mocinhas pintam as unhas com esmalte escuro. Mas eu só tenho as certezas, não os porquês.
Em matéria de higiene e cavalheirismo, eu tenho certeza absoluta de que o Jamie Oliver não lava as mãos quando sai do banheiro e de que o Russel Crowe se esquece de abaixar o assento da privada depois de fazer xixi.
Já no âmbito cinematográfico e aéreo eu aposto que o Tom Hanks se arrepende de ter feito “O Código da Vinci” e que aquela câmera de “landscape” que fica na barriga de alguns aviões roda um VT em looping (em dia de tempo bom).
Gastronomicamente, o que posso afirmar sem medo é que, de cinco amigas minhas, quatro teriam recusado a sopa de tartaruga de Babeth e uma não teria nem ido a festa. Eu sei que quem desdenha quer comprar, mas duvido que vale mais um pássaro na mão do que dois voando.
Aposto e ganho com quem quer que seja: todo mundo já teve pelo menos um sonho erótico nessa vida e ninguém deixa de isolar três vezes na madeira quando tem um pensamento ruim.
Mas eu não confio nada nesse tipo de certeza que aparece assim, toda metida à besta, se achando absoluta. E confesso que me orgulho envergonhadamente da minha lógica incoerente de viver a vida sem acreditar em nada, mas achando que estou certa sobre tudo.
Por isso é que eu digo: saber, eu sei.
Agora, você, bom, das duas, uma.
Só acredita se quiser.
Ou se for o Bono Vox.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h26
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